SE ISTO É UM HOMEM
A religião tem a ver com escolhas. Escolhas, não do divino, mas do humano, que busca representações íntimas, quase directas de si próprio, num espelho demasiadas vezes demasiado opaco. Não existem coincidências, neste jogo simples. Nem o simbólico, cujas interpretações são sempre demasiado ambíguas para serem escolhidas como sendo as únicas regras deste jogo, “salvam” a aparente coerência desta aparente verdade absoluta. Um jogo compreensível, previsível, emocionalmente recompensador, para todos o poderem jogar, num tabuleiro global.
E foi neste contexto – social mas sobretudo do humano - que surgiram as escolhas – óbvias – e as regras – também elas óbvias – do homem- tornado- divino.
Era necessário escolher um ser divino – espelho do homem: escolheu-se o antropomorfismo, essa gradual aproximação ao Deus “perfeito”, com emoções humanas básicas.
Era necessário que o Império Romano escolhesse a religião certa para dominar, além das rotas comerciais do Mediterrâneo, as mentes e almas das gentes desse mesmo Império: e o Cristianismo cumpriu o seu papel – após alguns óbvios erros de “casting”.
Era necessário “dividir para reinar”: e “inventou-se” essa Trindade- “Tríade”, que lança poeira aos olhos desses humanos que domina, e domina-os pela doce ilusão de que são religiões diferentes quando são, na realidade, baseadas no mesmo conceito monoteísta e pessoal. Judaísmo versus Cristianismo, versus Islão: três opções profundamente iguais…
Foi necessário construir o homem fragmentado”: e “fez-se luz”, ao separar a natureza que há no homem, para endeusar esse mesmo homem, ou a sua cultura, e ainda a sua postura arrogante de Deus- ele- próprio.
E havia também a necessidade de escolher a linha de pensamento do Deus único, a mesma linha que suporta a ideia de que o domínio do patriarcal sobre o feminino no divino é algo de adquirido, de racional.
Não o é. Longe disso. Mas quem fez estas escolhas “por nós”, já o sabia. Sabia-o muito, muito bem.
E fez as escolhas “certas” para sustentar um Deus personalizado, fato feito à medida, um Deus que é afinal uma grande, uma enormíssima impostura intelectual.
II
Ousemos, portanto, e perante estas evidências, pensar diferente, sentir diferente, e começar, finalmente e sobretudo, a traçar um rumo diferente para a nossa vida intelectual e emotiva.
Para que a religião “oficial” possa vender o seu “peixe”, é necessário um dado de base: o medo. Ora, ao existir separado da sua própria natureza, num castelo cultural pretensamente inexpugnável, o homem vive obcecado pelo medo da sua morte física.
A religião, sabendo isto, vende então o perdão divino a “preço de saldo” a um homem em rotura com o seu passado, essa infância mal sanada, um homem que procura um Deus personalizável e um Paraíso além da morte. Ora, tanto o Cristianismo como o Islão “vendem” esse produto, essa “nova droga”, esse sonho finalmente alcançável.
Lembremo-nos das palavras de Ortega e Gasset: “O homem é o homem e as suas circunstâncias”.
Para preparar o terreno à mentira perfeita, há que utilizar mistificações, ou seja, meias- verdades.
A 1ª mistificação é a passagem do monismo ao monoteísmo: de uma perspectiva do divino ligado directamente às forças da natureza (chuva, sol, tempestades) passa-se para o culto do Deus único. Karl- Heinz Ohlig reconhece até que o monismo tem a seu favor a vantagem racional, mas o problema – digo eu - é que o monoteísmo permite outros “voos” à religião dos sacerdotes- burocratas...
É desejável a união das duas opções? – é, sim senhor, refere Ohlig; no entanto, nunca existiu historicamente tal união: ou domina um, ou o outro. Já o monoteísmo traz consigo a “armadilha invisível” da massificação, uma vez que representa actualmente a religião de cerca de metade da população mundial. Diga-se ainda que as religiões têm todas a sua origem em indivíduos.
Dá-se uma certa evolução do divino- natureza ao Deus- pai castigador, verificando-se também uma substituição dos deuses por um Deus único egoísta e “ciumento” (Javé dixit): do Xamanismo, Budismo e de certo modo paganismo para a extraordinária personificação do divino: Javé no Judaísmo; Pai de Jesus Cristo, no Cristianismo e Alá no Islão.
Passemos agora à 2ª mistificação: o antropomorfismo, ou seja, o Deus feito à imagem do homem.
Os seres humanos pré- históricos ainda não veneravam deuses, mas sim forças objectivas, associadas em grande parte à Terra, pensada sobretudo como uma realidade feminina. Esta mentalidade arcaica prolongou-se, provavelmente, até à veneração do feminino nas religiões mundiais. Por volta de meados do 1º milénio a.c., ocorreram rupturas profundas que colocaram o ser humano individual no centro da questão religiosa, reforçando assim a evolução para o antropomorfismo dos deuses.
Tal como no cinema e publicidade a imagem é acelerada para condicionar as respostas emotivas e sensoriais de um humano no limite de si mesmo, talvez nunca se venha a saber se este processo do ênfase no antropomorfismo é imposto “administrativamente” por políticos com uma visão de largo horizonte, ou se a evolução psicológica do próprio homem o impõe de uma forma “natural”.
A 3ª mistificação tem a ver com a instrumentalização política da religião.
A habitual e cínica crítica ocidental ao Islão – acusando-o implicitamente de instrumentalização política da religião – tem bastante piada, pois sabe-se que o Império Romano fez exactamente o mesmo, apostando num Cristianismo ainda “criança” para sarar as feridas e unir o Império, após séculos de perseguições e assassínios de milhares de cristãos. Em que lado está então essa hipocrisia?
A ideia do Ocidente neutral e com as “mãos limpas” está muito mal contada, de facto...
Ora esta aposta de alto risco tem a sua razão de ser: as religiões monoteístas apresentam uma radicalização da noção de um Deus único, absoluto e quase pessoal. O fracasso da política religiosa do Imperador Juliano Apóstata – que quis transformar o neoplatonismo na ideologia de estado em vez do Cristianismo – era inevitável; a era do politeísmo tinha passado e o futuro pertencia ao Cristianismo. Vemos desta forma o inimigo de ontem a tornar-se rapidamente no amigo de amanhã, a bem de uma unificação mais efectiva de um Império que inúmeras vezes ameaçou ruir, sob os olhos atónitos de gerações e gerações, que habitavam à volta do mítico Mediterrâneo.
A política lava assim a sua alma numa religião domesticada à pressa e à medida dos objectivos de longo fôlego de políticos astutos, que utilizariam absolutamente tudo para salvar o seu próprio poder, ante adversários que também fariam de tudo para lhes usurpar esse mesmo poder. Não é apenas o poder espiritual que se baseia nas ideias de fertilidade, bênção, ancestralidade e espíritos auxiliares; também o poder político utiliza estas ideias para controlar as acções das pessoas.
No que diz respeito a Jesus Cristo, não terá a sua interpretação de Deus- pai sido a peça que faltava no puzzle religioso e político da sociedade da altura? Lembremo-nos de que todas as situações dos profetas relacionadas com a natureza (provocar chuva, dividir as águas , etc) têm a ver directamente com o xamanismo, não com Deus(es) personificados. Ao fazer-se anunciar como o profeta que vinha para “completar a Tora” e não para contestá-la, ganhou a passadeira vermelha estendida por João Baptista, e “colou-se” à tradição judaica, para obter juros políticos, sem dúvida. Esta tentativa de assumir a profecia religiosa do “Rei dos Judeus”, tem também o seu quê de vontade política de unificação. Jesus Cristo tornou-se uma força poderosa – mas mais importante depois da morte, “tradição” logo seguida pela resposta da sociedade aos heróis da Ate Moderna, pós- Impressionismo…
Neste contexto, distingamos ainda o papel do indivíduo que se torna representante dos espíritos nas comunidades onde impera o xamanismo, das tarefas mais institucionais ocupadas pelos intitulados sacerdotes, na maioria das religiões existentes nos nossos dias.
O xamã é o curandeiro e o feiticeiro, humano e animal, macho e fêmea. O ou a xamã tem uma natureza dupla, humana e divina, já que encarna os espíritos no próprio corpo.
Já um sacerdote é totalmente diferente, na medida em que personalizar Alá, Jeová e o Espírito Santo é inconcebível e até blasfemo. Os sacerdotes representam apenas uma “rotinização” da função xamânica. Os próprios deuses terão sido xamãs antigos, que aumentaram de importância após as suas mortes.
Enquanto os profetas e outros místicos com experiência directa de Deus são vulgarmente de importância crucial na fase inicial de uma religião mundial, já nos últimos estágios passam a constituir um desafio perigoso à autoridade constituída.
Entre um xamanismo demasiado ingénuo e sem “estruturas administrativas”, será que a burocracia de sacerdotes sem fé nem capazes das tão essenciais visões místicas é um “remédio” melhor? Duvidamos... Deu-se um desenvolvimento temporal desde a visão pessoal do profeta, para uma estrutura de poder burocrática, muitas vezes corrupta e até pedófila de sacerdotes pouco crentes, que beatificam tudo o que mexa à sua volta – mas apenas após a sua morte...
A próxima mistificação é um “clássico” de todos os tempos: a estratégia do “dividir para reinar”. Os americanos, para só citar o exemplo mais actual e mais evidente, utilizam-na há décadas para dominar o mundo. Utiliza-se hoje como ontem, e será sempre assim.
Ohlig “admite” que o Cristianismo e o Islão nascem do Judaísmo.
A afirmação da relevância absoluta do particular não tornou fácil ao Judaísmo, e mais tarde ao Cristianismo e ao Islão, tolerar outras religiões, cuja diferença era sempre entendida como contestação, não sendo assim tão fácil perceber e reconhecer aquilo que estas religiões tinham em comum.
O Cristianismo surgiu a partir da religião judaica e assume esta origem também no reconhecimento do carácter normativo da Bíblia judaica, do Primeiro ao Antigo Testamento.
Já no Islão, o anúncio do profeta aparece numa grande parte do Corão como uma corroboração da revelação, ocorrida anteriormente no Judaísmo e no Cristianismo, da “Escritura”, e o Islão é encarado como a fé na revelação presente nesta Escritura. Foi necessário algum tempo para que o Islão se começasse a compreender como uma religião autónoma. O Islão anuncia muito claramente o poder único de Alá. Portanto, o Islão apresenta uma opção religiosa cuja estrutura é semelhante à do Judaísmo e do Cristianismo.
Todas as 3 opções se baseiam no monoteísmo, no Deus único. Ao ouvirmos que “Eu sou Javé, o único Deus; não terás outros deuses pois eu sou ciumento”, e outras coisas que tais, reconhecemos imediatamente os seus dois “filhos”: mas, se Alá é grande e único Deus, e se o pai de Cristo é também o Deus único, das duas, uma: ou dois destes estão errados, ou todos eles mentem e não existe nenhum Deus único!!
Ao apostar nesta “Trindade- Tríade”, os grandes senhores da política e da economia esqueceram-se de um único pormenor: a plausibilidade! A lógica é sempre algo mais do que uma batata!
Já para não falar do paradigma geográfico que nos ensinam na escola: o Médio Oriente não é nem a região do mundo mais complexa nem a mais antiga, a nível religioso. Neste assunto fulcral, há que reconhecer a validade de um “novo” paradigma do divino: em termos religiosos, a Ásia meridional é (e não o Médio Oriente) a região mais complexa do mundo, pátria das antigas religiões do Budismo, hinduísmo, confucionismo, tauismo e xintoismo, bem como de formas de há muito estabelecidas e localmente adaptadas do islamismo e cristianismo.
A 5ª (e última?) mistificação baseia-se num corte umbilical entre o homem e a natureza. Para “construir” um homem desconstruído, fragmentado, parcial (e apenas parcialmente racional), a revolução industrial assentou que nem uma luva num ambiente citadino opressivo, cruel, massificador de almas, que isola o ser humano numa redoma de paredes, de janelas opacas, de micro- ambientes formais e assépticos, onde cada um é também apenas mais um refém do betão e do cimento. Sem horizontes de futuro, nem memórias do passado, o homem actual vive em eterna luta de personalização do real e de codificação da ambiguidade comunicacional.
III
Chegados a este ponto, esclarecidas e nomeadas as 5 mistificações, é agora tempo de compreender o porquê de todas elas, uma por uma: o sonho que as religiões vendem é sempre, sempre o mesmo, seja em 2010 ou 5 séculos antes ou depois: anuncia-se aos 4 ventos a superação religiosa- intemporal- da morte.
Ao criar o “limbo” nos cemitérios, o Cristianismo burocrático sabia muito bem brandir o chicote sobre as populações. Hoje já ninguém se lembra disso, e o que ficou foi o sonho- ele- próprio: o Paraíso é oferecido, tanto pelo Cristianismo, como pelo Islão, diminuindo a ansiedade natural do homem e permitindo-lhe viver o dia- a- dia sem angústias existenciais indesejáveis à sua produtividade. Ou seja o remédio funciona como deve funcionar para o homem- máquina se poder “encaixar” na fábrica de qualquer coisa, tal como a sociedade globalizada sempre desejou. A actual crise global veio apenas permitir aos empresários a concretização dos seus próprio e mais loucos sonhos… Nunca houve tanto desemprego, nem nunca existiram tantos milionários…
Já a superação do caos inicial – do início do cosmos, do início do simbólico e da Linguagem - parece também enquadrar-se numa lógica idêntica. Ohlig diz mesmo que “O homem é o único animal que sabe que tem de morrer” – será este o melhor conceito de cultura que é possível formular? Provavelmente, até é...
E desembocamos aqui, nesta resposta sempre reformulável, perto da alma do homem, junto às suas emoções mais íntimas, plenos da consciência de que é o xamanismo o único pilar ainda de pé. Um pilar ancestral, que continua a servir de abrigo quando o ser já não é humano mas ainda recorre a esta sabedoria após todos os outros Deuses- intermediários de coisa nenhuma falharem.
É hoje unânime – pelo menos entre os antropólogos mais sérios – que o xamanismo é a origem de todo o conceito religioso, assumindo-se como a religião humana original e primordial. Há realmente semelhanças espantosas entre as ideias e as práticas xamânicas de regiões geograficamente distantes, bem como são inúmeros os casos em que as religiões que surgiram mais tarde copiam e integram em si mesmas características do xamanismo, a começar no Budismo e por aí adiante.
As descobertas paleolíticas do século XX abriram o caminho a interpretações que tornaram o xamã a figura principal na busca das origens da religião. Desde La Barre a Eliade ou Vitebsky, as opiniões fundamentais (e) fundamentadas são unânimes.
É óbvio que será o xamanismo a prevalecer, no fim dos tempos, e a unir esses irmãos irresponsáveis desavindos chamados Cristianismo e Islão; afinal, só um pai – ou uma mãe tem esse poder. O Judaísmo é um parente muito, muito afastado, e as opiniões de alguns papas são no mínimo discutíveis... É um facto. E contra factos, como se costuma dizer, não há argumentos.
Há uma necessidade imperiosa de centralização, centralização essa impossível de realizar por um Cristianismo demasiado atolado em escândalos ou por um Islão finalmente autónomo mas demasiado conotado com extremismos.
A estrutura teórica do xamanismo é sólida, e o xamã aparece-nos hoje em dia como o genuíno representante de uma forma religiosa não adulterada, profunda e profundamente inspiradora. Deve procurar-se no xamã – e na sua personalidade extremamente complexa e completa – as grandes e estruturais questões a que a religião sempre procurou dar resposta.
O xamã liga entre si áreas como a religião, a psicologia, a medicina e a teologia, que, na literatura ocidental, se encontram separadas. Através das suas experiências individuais, os meios do xamã são psicológicos, mas os fins são sociológicos, para sarar e manter a comunidade. À luz de algumas ideias sobre o afastamento entre a terra e o céu, o próprio Cristo pode ser considerado como uma espécie de xamã, quando viaja entre a terra e o céu, para assim conseguir a salvação moral da humanidade. Numa narrativa do século XIII, Marco Pólo conta que os xamãs conseguiam levantar tempestades.
A força mental do xamã deriva de uma experiência expandida de distúrbio mental. Em último caso, é a sociedade que distingue entre o comportamento do xamã e o do esquizofrénico ou do psicótico: um transforma-se em herói e o outro em paciente de um hospital. O transe de um xamã (intimamente ligado ao êxtase), contrariamente ao de uma pessoa possessa, é altamente controlado. A opinião de Lommel (1960) sobre a perturbação mental do xamã do Paleolítico como estímulo necessário para a criatividade artística veio transformar o patológico e ineficaz xamã do passado um criador cheio de imaginação na “Nova Era”.
Por isso mesmo impõe-se agora a pergunta:
“- Quem és tu, Xamã?”
(e eu posso garantir que a resposta, seja ela qual for, será surpreendente…)
(P.S.: um Xamã é um conselheiro, NUNCA deverá tornar-se um líder "visível"; foi assim nas tribos índias e deve assim continuar a ser)


